quarta-feira, 24 de março de 2010

Rodoviária Freakshow – Uma Autocrítica

Perder um ônibus, ao final de um dia quente e estressante, além de te proporcionar uma ótima oportunidade de usar todos os palavrões que são evitados em momentos menos “propícios”, também traz, mesmo sob a ótica do tédio irritado que acompanha toda espera desnecessária, momentos interessantes de auto-análise, diante da estranha e enorme diversidade de pessoas que apenas pouco mais de 50 metros quadrados podem conter (ô frasesinha mais nerd...), um belo freakshow, como diz um certo amigo, diante de tudo o que parecer estranho.
No momento em que escrevo, um PM com a forma física de quem mal anda do sofá até a geladeira em suas folgas, finge que protege a sociedade com o ar imponente de quem julga deter o poder, mesma sociedade esta que pisa sobre a mãe indígena, exaurida e rodeada por seus cinco filhos, que mesmo dentro da rodoviária lotada tem um assento só para ela: não é cota especial para índios sujos e maltrapilhos e nem tampouco educação, é somente o sentimento típico de nossos dias, “nojo-classe-média”, mais conhecido por nossa hipocrisia como “decoro”... aliás, sentimento bem explicitado na maneira como a pequena horda de patricinhas se posiciona e olha para o grupo anteriormente citado: distante e com preconceito a escorrer de seus olhos, junto com a base que esconde suas mal disfarçadas espinhas adolescentes. Ao meu lado, um muito educado rapaz crê que todos ao redor gostam de ouvir funk, principalmente se entoado com a voz fanhosa de um moderníssimo celular, que faz questão de expor satisfeito, e um senhor que provavelmente tem os seus 30 anos, mas aparenta o dobro, tenta compartilhar, fraternalmente, de seu enfisema pulmonar através da fumaça negra de um cigarro que segura nervosamente, com os colegas de espera. Pessoas sozinhas, acompanhadas, irritação latente, padronizada, cheiro de suor, álcool e cigarros se misturam com o cheiro de perfume (barato?... caro?) de alguém que provavelmente entornou um vidro inteiro de colônia sobre si.
E dentre muitos sentimentos que se pode ler nos rostos de tantas pessoas, que passam apressadas e sem olhar para o lado, dois, de fato, reinam aqui, e pelo que parece, reinam também no resto do pequeno mundo com o qual convivo: Cansaço e Solidão, assim, com letra maiúscula mesmo. Cansaço dos problemas, do chefe mal educado que acha que tem poderes absolutos, das contas que chegam e muitas vezes atrasam, do ônibus lotado, do caminho longo, do dia quente e quem sabe da noite futuramente mal dormida, cansaço da vida em si, que nós mesmos temos teimado em tornar mais pesada com o nosso ego inflado, nossa falta de educação e com a básica e bem decorada frase: “o problema não é meu!”. É meu sim! É meu porque o meu dia foi ruim, e por causa disso, quem sabe por uma vingança inconsciente e sádica, também piorei o dia já ruim do atendente na rodoviária, proferindo um monte de ofensas, não diretamente contra ele, mas contra a empresa que ele representa. É meu sim, porque reprovei as patricinhas que olhavam feio para os mendigos e trabalhadores maltrapilhos, mas não me sentei com eles, não ofereci palavra nenhum e nem comprei nada que me ofereceram, mesmo tendo o dinheiro, porque o “MEU” vinho do fim do dia é sagrado, a “MINHA” cerveja gelada na tarde quente não pode faltar, mas o alimento deles pode... Uma cesta de vime é inútil? Qual a utilidade de uns três grandes goles de álcool diários? E tem também a solidão. A solidão do casado que saí do emprego para a rotina do casamento sem sentimentos, a solidão que, longe do olhar romântico de alguns poetas (Tiago, nada pessoal, tá?), não é nada bela, é realmente dolorosa e feia, menos bela ainda no rosto desse senhor idoso que, bom ou mau durante a vida, de qualquer forma, parece encaminhar-se para a pior morte de todas, a morte só. A solidão do “um em um milhão”, solidão coletiva, bem acompanhada de mais uma centena de solitários. Solidão da menina de rosto lindo, certamente invejada pelas amigas por ter qualquer carinha que quiser aos seus pés, mas que, quem sabe, não passa de um objeto de uso descartável nas mãos de, e olha aí de novo, um egoísta, como qualquer um de nós tende a ser. Se a maquiagem e o rosto quase perfeito escondem os sentimento, os olhos nunca fogem do que o coração quer mostrar, e quase unanimemente, o que os olhos tem aparentado é isto, estes sentimentos ditadores e cruéis que regem o nosso dia-a-dia.
Pensando bem, o atraso do ônibus que agora estaciona diante de mim, se não me fez bem, ao menos me serviu como um belo soco no estômago. Critiquei com meu sarcasmo, e minha própria consciência me ridicularizou. Quem me deu direito de apontar pessoas vazias, egoístas e frias, se eu mesmo sou assim?
E pensando melhor ainda, não são dois sentimentos os reis do nosso dia. É um só. O supra citado EGOÍSMO, que pelo que se pode notar, leva a todos os outros. Amanhã eu deveria pedir desculpas ao atendente da rodoviária, e comprar um cesto de vime... Mas provavelmente o efeito bumerangue vai agir e o atendente será estúpido comigo antes. E não fui eu mesmo que começou isso? Bom, sobra o cesto de vime...

P.S. do dia seguinte: A mulher dos cestos não estava mais lá quando voltei... Mas um mendigo pediu dinheiro e eu não dei, provavelmente era pra comprar cigarros, e eu é quem não fico sem a minha ceva gelada para alimentar o vício dos outros...

Diego Schirmer

2 comentários:

  1. Vah lá, eu tento não lembrar de metade dessas coisas durante o dia ou ficarei doida de pedra!
    Mas que em toda parada de bonde, em todo bonde (ou qualquer coletivo que você use) você encontra exatamente essas coisas e muitas vezes sente isso, ah, isso e verdade!

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  2. Caramba Diego, você tá de parabéns muito legal teu texto,retrata bem o cotidiano de uma parada de onibus,e o interessante que eh assim mesmo enquanto espera vc começa a analisar e fazer os julgamentos como se não fizesse parte desse todo, eu me vi em várias situações descritas rsrsrs.
    Você e o Tiago estão de parabéns pelo blog, ficou legal mesmo.
    Bjos

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